quarta-feira, 20 de abril de 2011

Especial

Na verdade o que a gente quer é ser especial.

Quando a gente é especial para alguém a vida muda de cor, as músicas são mais bonitas, enxergamos o mundo com outros olhos, tudo se torna melhor, até as dores doem menos...

O que verdadeiramente queremos é ser especial para alguém.
Não importa se é para o motorista que você encontra diariamente e se você se atrasa ele demora um segundinho a mais pra ver se você aparece e pega ônibus, ou o seu gato que te espera chegar deitado no muro olhando a rua, a moça do cafezinho que sempre deixa na sua mesa o seu café mesmo quando você não está na mesa, só porque ela sabe que vc gosta, ou sua mãe que te espera acordada até que você finalmente chega e ela pode ir dormir, ou se é para o amor de sua vida que te recebe com um abraço apertado cheio de saudade depois de um dia de trabalho...

Não importa! O que a gente quer é ser especial, e quando nos tiram isto, dói mais que dor de dente, muito mais que uma topada, que cólica intestinal. Dói por dentro, parece que estão te arrancando a alma do corpo, e fica um vazio que não tem mais tamanho no peito.

Cuidado ao retirar o valor que um dia depositou em alguém. As vezes é inevitável que alguém se torne comum, mas a forma como fazemos isto pode  não ser cruel para quem sente.


De Camila Mascarenhas

sexta-feira, 1 de abril de 2011

1° de Abril

Esqueci...
 
Teu nome, teu rosto, teu gosto, teu cheiro.

Apaguei...

As senhas, as letras, as chamas.

Rasguei...

As cartas, as fotos, as roupas.

Aquele bilhete preso no quadro, os passeios de mãos dadas pela estrada, o primeiro beijo, o calor da cama pequena, o silencio da chegada, o madrugar para partida, as lágrimas dos sorrisos... Tudo...

De todo tempo juntos, não restou nada.

Nunca fale daquele tempo juntos, das horas que passamos apegados sem noção do tempo, perdidos em carinhos.

Esqueça, pois eu, de nada disto sei.

De repente, amnésia! 



De Camila Mascarenhas

quarta-feira, 30 de março de 2011

Angustia


Meu momento é tenso, precede alegria ou dor, quiçá?

Num escaninho da alma me refugio da angustia, mas ela em alguns momentos me surpreende.

Rogo a Deus que não falte serenidade quando a hora chegar, nem a razão necessária para manter o próprio respeito.

Que o momento seja indulgente, não que eu seja merecedor, mas em virtude dos sentimentos.




De Camila Mascarenhas

segunda-feira, 14 de março de 2011

O grito no muro

Ela estava passando distraída, aluada, flutuante, como uma folha que trafega no vento, quando, mais que de repente, ela leu o escrito no muro, meio muro, estava quase todo destruído, restava apenas aquele pedaço com aquela escrita, parece que era a escrita que mantinha aquela ruína em pé de tão linda que era...

Aquelas palavras tinham força suficiente para fazer permanecer alí aquele pedaço de muro desmoronando...

As palavras também tinham o poder de fazer o sol brilhar se o dia estivesse nublado...

Aquelas palavras fizeram ela mudar o caminho, ela queria passar por alí para ler e fazer a sua alma sorrir...

Durante dias ela passava e permanecia alí por algum tempo lendo, relendo, pensando, sorrindo, chorando e amando...

O muro gritou aos olhos dela dizendo assim:

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."*

Por vezes a vi alí  ouvindo aquele muro,  confesso que aos ouvidos de minh'alma o muro também gritou.



*Texto de João Cabral de Melo Neto 



De Camila Mascarenhas


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Encontro...


Que bom que você chegou... Gostaria de poder viver aí, e se fosse possível não voltar, mas não posso, tenho que permanecer aqui, sei disso...
...
Desculpe, sei que é covardia, sou covarde as vezes, mas também sempre enfrento o que me aflige, mesmo quando a vontade de fugir chega assim , forte!
...
Não precisa se preocupar, não vou mais falar disto, deixa pra lá, não se preocupe, já esqueci, vou chorar um pouco e isso passa, mas antes de você ir, e antes que eu acorde, me faz mais um pouco de cafuné e me abraça forte, é que eu sinto muito sua falta e sempre que você me abraça acordo com seu cheiro!

Quando você vem novamente?

...
Tudo bem, sei que mais cedo ou mais tarde você virá!
...
Te amo!


De Camila Mascarenhas

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Só Hoje

Hoje lembrei da razão de um dia ter transformado em tempestade uma gota d'água...

Hoje lembrei a razão de ter expulsado você daqui, dalí, de lá e de todo lugar onde você sempre estava...

Hoje eu fiquei triste...

Hoje o tempo que passou voltou depois que fui embora e até aquela tatuagem que fiz, e que leva teu nome, doeu como no dia em que foi feita...

Hoje pensei em tudo que foi, em tudo que é, no que desejei, no que não foi, no que deveria, no que não é, e no que nunca será...

Hoje o estranho se fez amigo intimo, e o amigo intimo se fez estranho...

Hoje sentimentos adormecidos acordaram e senti ciúme, saudade e inveja, só não senti alívio...

Hoje amei como um dia e como nunca mais...

Hoje tudo novo, que era velho, de novo...

Tudo isto, só hoje!



(As vezes nos identificamos nas dores das outras pessoas, por isto, dedico este Verso Solto  a Emília Farias)


De Camila Mascarenhas

Ela me procurou...

Ela me procurou, bateu em minha porta, entrando rapidamente antes mesmo que houvesse uma resposta, e disse:

-Entendi! Entendi! É preciso viver!

E continuou com um largo sorriso:

-É preciso viver, é preciso abraçar o desconhecido, não ter medo do futuro e correr riscos! Eu entendi que viver é correr riscos sem ter medo, só preciso mensurar os riscos e não tirar os pés do chão sem antes calcular as possibilidades, as boas e as ruins!

Continuei olhando enquanto ela sorria e continuava a falar numa euforia atônica:

-Tenho apenas que acreditar nas boas, rezar para que elas aconteçam e acreditar, mas sabendo que pode tudo ser diferente do que desejo.

Ela fez uma breve, muito breve, pausa para respirar e continuou:

- É isto não é?! Eu sei que é! Foi isto que quisestes dizer, não foi?! Eu sei que foi!

Depois disto, beijou-me a face como quem deseja beijar-me a alma, olhou-me nos olhos agradeceu, virou-se e saiu, no mesmo furor com que chegou, sem ao menos dar-me a chance de responder uma única pergunta.

Lembro-me bem, ela saiu como a criança que descobre um tesouro. 

Naquele instante eu percebi que ela estava crescendo, e logo saberia defender-se sozinha e a única coisa que nos ligaria seriam os sentimentos.

Chorei, não dizer se de tristeza ou de alegria pela sua conquista, apenas sei que chorei, sabia que não era tão simples como uma soma exata, mas ela estava no caminho.

Ela entendeu que existem riscos que precisam ser corridos! 



De Camila Mascarenhas